Oi, gente!
Tudo bem?
Por aqui seguimos naquela dinâmica: um olho no mundo, outro no país e outro no Estado de Santa Catarina - e para isso tudo precisamos de três olhos.
No mundo, o absurdo da “Doutrina Donroe” acuando a América Latina em um projeto de poder vexatório para um território cada vaz mais à direita. No país, Flávio Bolsonaro ocupando o noticiário com seu currículo fake e com um suspeito registro de filiação no Missão.
E por aqui…bem, por aqui a gente segue a conversa, mas antes vamos dar um pulo logo ali, no Maranhão. Bora de papo?
Os limites da atividade jornalística e do judiciário
De primeira, fiquei bem contrariada com a repercussão da decisão do ministro Alexandre de Moraes em quebrar um off - o sigilo da fonte dos jornalistas - de um caso investigado no Estado do Maranhão. Isso aconteceu porque o off é sim um patrimônio do jornalista, uma cláusula pétrea da Constituição e um mecanismo essencial à fiscalização do poder.
Casos bastante emblemáticos no Brasil e no mundo só foram resolvidos porque o off é um direito, é uma forma de o jornalista saber e fazer saber fatos que não podem ter sua fonte nomeada, para protegê-la de retaliações ou simplesmente pelo desejo desse informante de assim fazer.
Aos poucos fui entendendo melhor o assunto, por conta de comentários e apurações de Otávio Guedes (Globo News) e Daniela Lima (Uol). Ambos tentaram trazer um olhar oculto desse debate: afinal, do que se tratava essa investigação e por qual motivo o off estava roubando a cena?
É difícil relativizar o off porque isso nos expõe: basta um único inimigo na polícia, no Ministério Público ou no Judiciário para um jornalista crítico e combativo passar a ser alvo de perseguições e até de law fare. Mas o caso do Maranhão é muito truncado para ser tratado como uma mera relativização.
Só por cima, ele envolve uma oligarquia familiar, do governador Carlos Brandão, senador, conselheiro de Tribunal de Contas e policiais. Envolve suspeita de desvio de emendas, ocultação de patrimônio, chantagem, peculato, propinas e - pasmem - um assassinato.
Não foi à toa que a justiça bateu a porta do jornalista Luis Pablo com o objetivo de descobrir quem poderia estar monitorando o passo a passo do ministro Flávio Dino e de seus familiares, justamente o magistrado responsável por conduzir essa investigação sigilosa.
Luis Pablo publicou notícia com o itinerário de Flávio Dino, mostrando saber por onde ele andava e onde iam seus familiares. Quando você está lidando com uma investigação sigilosa de sujeitos extremamente poderosos, saber que alguém tem acesso aos seus passos não é só um caso de violação de privacidade, mas de espionagem.
A suspeita é de que a fonte dessa informação seja exatamente a mesma investigada por tentar obstruir investigações destes processos, tentando evitar que um conselheiro do TCE fosse colocado na cena de um assassinato. É tudo muito nebuloso e, neste caso, o jornalismo não entra como canal de informação de interesse público, mas como peça criminosa, como um eixo utilizado para fustigar e ameaçar Dino.
Esses dias mesmo fui alvo de uma intimação injusta da Polícia Federal e sei como o aparato do Estado e da justiça pode ser usado para intimidar os jornalistas. Está longe de ser esse o caso relatado aqui: há suspeitas também de que o jornalista tenha negociado a matéria e seja parte de um grupo articulado para dificultar o acesso à verdade. Nesse caso, é preciso separar o joio do trigo e não desviar a discussão dos crimes para proteger uma profissão que está ameaçada por uma série de outros fatores que raramente são notícia.
Alexandre de Moraes é reconhecido como um juiz enérgico, mas neste caso sua decisão tem menos relação com uma prerrogativa profissional e mais com o fluxo de uma investigação cheia de suspeitos com foro privilegiado. Descobrir se a mesma pessoa que tentou obstruir a investigação também monitorou os passos de Dino e se isso ocorreu às margens da lei não parece um mero detalhe.
Dito isso, fiz um resuminho na rede ao lado tentando reconstituir o caso.
Entidades cobram proteção ao sigilo das fontes
Entidades que defendem jornalistas e o jornalismo se manifestaram nos últimos dias em defesa do off, assim como o presidente do STF Edson Fachin. Xandão, por outro lado, tentou disputar a narrativa dizendo que não se tratava de limitar a atividade jornalística, mas de investigar suspeitas relacionadas ao acesso e à divulgação de informações sigilosas.
Fazer bom jornalismo é um desafio enorme. A atividade é cara, somos mal remunerados, vivemos sob tensão, exposição e estamos sujeitos ao adoecimento mental à medida que nosso trabalho avança e ganha público e repercussão.
Sou uma grande defensora dessa profissão e também por isso me dou o direito de dizer que muitos oportunistas buscam se proteger e faturar enquanto fingem serem profissionais. Se for esse o caso, talvez seja um momento de retomarmos a sempre importante discussão sobre um conselho profissional que proteja quem de fato precisa ser protegido.
Aqui em Santa Catarina, tenho bons (maus) exemplos de “canais de informação” que são, na verdade, instrumento de chantagem para seus proprietários. Neles, quem paga mais, leva; notícias exclusivas surgem como água e dinheiro público jorra como chafariz. Meu ativismo pelo direito à informação esbarra nesse tipo de business porque isso não é jornalismo, é exercício de pilantragem. Em canais desse tipo, off é dinheiro e poder, não prerrogativa profissional.
Sem pautas relevantes na educação, governo de SC distorce métrica do Ideb e se auto-celebra pelo que não fez
Na última semana, manchetes dos jornais e perfis das redes sociais do governador Jorginho Mello e da secretaria de Educação Luciane Ceretta celebraram as notas obtidas por Santa Catarina na principal avaliação da educação básica no Brasil, o Ideb. De fato, as notas subiram, o que não justifica a distorção marqueteira utilizada pelos gestores para forjar um desempenho inexistente.
Na coluna do ICL trago alguns detalhes adicionais, mas o fato é que ambos decidiram surfar no desempenho das redes municipais e também da rede privada de educação para anunciarem que o Estado estava no pódio do Ideb.
O Ministério da Educação divulga indicadores diferentes para a mesma conta: a nota geral soma os desempenhos da rede pública com a da rede privada. Neste caso, a rede pública também soma as médias dos ensinos federal e municipal e acrescenta à avaliação do Estado. Resumindo: a nota do Estado não é a nota da rede estadual, que, isolada, continua pairando no meio da tabela, sem pódio, sem destaque e com um pouco de constrangimento.
Isso significa que os gestores do Estado celebraram por algo que não fizeram, o que ficou bem documentado pelo Sindicato dos Trabalhadores de Educação (Sinte-SC) ao refazer o ranking como ele deveria ter sido montado: se isoladas as médias da rede estadual, seríamos os décimo-primeiros nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, nonos nos Anos Finais e décimos no Ensino Médio.
Pega na mentira
Venho falando desde a primeira cartinha que envio para vocês que esse governo bolsonarista de Santa Catarina é suco de marketing e dos novos tempos. A educação do Estado foi completamente escanteada ao longo dos últimos anos e é claro que isso se reflete nas avaliações.
Ainda que as médias tenham aumentado, os alertas não deixam de existir: o governo optou, desde 2023, por investir alto no ensino superior privado e segue mantendo o salário dos professores como um dos piores do Brasil. Além disso, o quadro de docentes efetivos também é uma ameaça ao sistema de ensino. O que já foi motivo de orgulho no início da década, quando SC figurava brilhando na educação pública, virou ponto de controvérsia.
Por mais que o Ideb seja um indicador que soma fluxo de alunos e as taxas de aprovação com o desempenho em provas de Lingua Portuguesa e Matemática, ele ganha importância à medida em que pode representar mais recursos do governo federal. Ainda assim, ficamos muito longe das metas estipuladas pelo MEC para o desempenho da rede estadual.
Isso o marketing não mostrou, como também não registrou quedas bruscas nas avaliações de escolas cívico-militar. A título de contraponto, transcrevo abaixo as respostas da Secretaria de Educação às questões que enviei.
1 - Por que o governo não explorou somente as médias da rede estadual?
A média da rede estadual é um dos principais indicadores para que Santa Catarina seja um dos estados com maior crescimento de desempenho do país no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). O Governo de Santa Catarina apresentou os dois resultados, tanto da rede pública estadual, como do estado como um todo, seguindo rigorosamente o que fez o Ministério da Educação (MEC).
O Ideb é do Estado de Santa Catarina. O Governo de Santa Catarina tem um regime de colaboração com os municípios e ressalta que as médias são muito próximas entre o Estado de Santa Catarina e a rede pública estadual. De todo modo, o Governo apresentou todas, tanto a da rede pública estadual quanto a do estado de Santa Catarina. Importante ressaltar ainda que o sistema de anúncio das médias segue o padrão adotado pelo Ministério da Educação em rede nacional.
Vale evidenciar ainda que essa evolução aconteceu acompanhada de uma ampliação muito significativa da participação das escolas estaduais: de 703 unidades avaliadas em 2023 para 921 em 2025, um crescimento de 31%. O aumento revela mais representatividade ao resultado e mostra que o avanço ocorreu em um universo muito mais amplo da rede estadual.
2 - O Sinte observou que um dos dados que puxou o Ideb de SC foi a taxa de aprovação. Há alguma política conduzida na SED para facilitar a aprovação dos alunos?
A SED destaca que há um equívoco na análise do Sinte. Santa Catarina, nos anos iniciais e nos anos finais, pratica retenção e não houve grande incremento nas taxas de aprovação. Já no ensino médio, Santa Catarina é o terceiro estado do país com o maior índice de reprovação. Portanto, a análise do Sinte não se aplica. Ademais, é importante salientar que o resultado do Ideb é resultado do esforço dos professores e professoras da escola pública, somado à grande mobilização dos estudantes e suas famílias para participação, que passou de 703 unidades participantes em 2023 para 921 em 2025, um crescimento de 31%.
Além disso, a Secretaria implementou diversos programas para melhorar ainda mais nos indicadores. O Aprender+ oferece reforço pedagógico em Língua Portuguesa e Matemática, com turmas reduzidas e intervenções direcionadas a estudantes identificados por avaliações e indicadores de desempenho. O Mais Tempo, Mais Saber, eixo do SC Integral, amplia o tempo de permanência na escola e oferece reforço em leitura, escrita e matemática, além de atividades de educação digital, empreendedorismo, cidadania, esportes, arte e cultura, entre outras.
O Tempo Certo SC atua na correção do fluxo escolar, atendendo estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental que apresentam distorção idade-série, com organização curricular específica e acompanhamento pedagógico. Já o Programa de Fortalecimento da Aprendizagem atende estudantes do 5º ao 9º ano que ainda não estão alfabetizados, com estratégias direcionadas à recuperação dessas aprendizagens fundamentais.
Com as iniciativas, o objetivo é criar condições para que o estudante aprenda, supere suas defasagens e avance em sua trajetória escolar, reduzindo a evasão e as desigualdades educacionais.
3 - Como vocês avaliam o desempenho das escolas cívico-militar?
Os resultados de 2025 mostram uma trajetória predominantemente de melhora nos indicadores das escolas cívico-militares em todas as etapas de ensino, com destaque para os anos finais do Ensino Fundamental.
Também é importante considerar que o trabalho desenvolvido nessas escolas vai além da dimensão pedagógica. A atuação na organização escolar, prevenção do abandono e da evasão e mediação de conflitos contribui para um ambiente mais organizado e para a permanência dos estudantes, criando condições mais favoráveis à aprendizagem.
Portanto, o desempenho representa um ótimo indicativo e a Secretaria de Estado da Educação continuará acompanhando a evolução das escolas atuando no modelo durante os próximos ciclos.
4 - A rede estadual não atingiu a meta do MEC em nenhum dos níveis analisados. Como a SED responde isso?
A Secretaria de Estado da Educação destaca que Santa Catarina teve crescimento em todas as etapas de ensino avaliadas e alcançou o melhor resultado da série histórica. O que elevou a nota de Santa Catarina, sobretudo, foi a proficiência, ou seja, a aprendizagem dos estudantes. No ensino médio, em língua portuguesa, Santa Catarina é o estado com o quarto melhor desempenho do país.
Mesmo com o ótimo avanço, o Estado segue desenvolvendo diversas iniciativas, com foco na aprendizagem dos estudantes, para que os índices sejam ainda melhores nos próximos indicadores.
É justamente por isso que a Secretaria mantém uma política permanente de acompanhamento do desenvolvimento dos alunos, com avaliações diagnósticas, fortalecimento da aprendizagem, formação continuada dos professores e ampliação do ensino integral.
Fica uma sensação incômoda de que o marketing tem, por aqui, mais valor do que a informação. E também de que gestores deveriam ser mais responsáveis com a divulgação de indicadores, sob risco de desinformarem os cidadãos em benefício próprio.
O sonho de Flávio Bolsonaro em cursar universidade federal
Mentiu, de novo, na cara dura. O sobrenome de Flávio Bolsonaro também deveria ser Mentira. Dessa vez, uma falsa especialização em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio de Janeiro levanta novas suspeitas sobre a idoneidade do pré-candidato que mais se enrosca em crises na história.
Flávio tinha em vários currículos oficiais espalhados pela rede uma menção a uma especialização que ele nunca fez, em uma universidade federal que ele nunca frequentou. Chama atenção como um povo que odeia a universidade pública a utilize falsamente para forjar seriedade.
Como o vídeo que eu fiz não está sendo incorporado aqui na cartinha, segue o link para quem quiser saber mais.
Uma pena que o assunto tenha sumido do noticiário por conta de uma outra história bizarra envolvendo o primogênito do ex-presidente: sua filiação ao partido Missão. O assunto roubou o noticiário, que por pelo menos dois dias discutiu de quem seria a culpa - Flávio, Missão ou TSE. Enquanto isso, Dark Horse e a irmandade com Vorcaro vão sumindo do debate e as pesquisas eleitorais voltam a preocupar…



Amanda sempre atenta em tudo! :)
Cartinha perfeita...
Em breve você vai poder apurar também, o "programa" dos vôos regionais, outro filhote do little Jorge.
Aí tem treta e das grandes, pode apostar :D
De fato, as pesquisas preocupam!